RÁDIO LUMMUS
Vaduz, setembro de 2021.


O Berrador
com Ollayinka Arendse


    Música de abertura do programa


    Olá, ouvintes! Eu me chamo Ollayinka Arendse e vocês estão ouvindo "O Berrador" na Rádio Lummus.

    Como prometido ao ouvinte que se auto denominou Troll das Montanhas, nosso espaço para debate vai falar sobre a educação na cultura bruxa. Portanto, vamos tratar do descaso que permeia a noção de justiça educacional e social da nossa Confederação Internacional Bruxa, afinal não tem como separar essas duas linhas de pensamento quando o tema fala mais do que apenas as regras de conduta de uma ou outra instituição de ensino.

    Mas antes de qualquer coisa gostaria de lembrar que recebemos cartas através da nossa rede de conversa: o Pombo Apressado. Ou seja, não esqueçam de enviar suas perguntas, sugestões e críticas – principalmente críticas –, porque vocês sabem que eu adoro um bom debate.

    Voltando ao ponto principal: é importante, em primeiro lugar, pensarmos de que forma a educação dos nossos pequenos bruxos acontece na nossa sociedade mágica. Quem é responsável por ensinar as crianças? Aquele que adivinhou “escolas” ganhou dez pontos para o seu clã! Pois é exatamente esse o canal de ensino que a gente mais usa. As escolas mágicas ofertam, aos futuros bruxos, tudo o que é básico para saber lidar com os poderes extraordinários que rondam a nossa psique sobrenatural. Daí tiramos que são necessários professores bem formados e entendidos de certos assuntos do que é entendido como currículo comum, seja nacional ou internacionalmente. Para além desse detalhe, é bom pensar também na estrutura, nas leis mágicas que envolvem o sigilo bruxo.

    Com isso temos duas problemáticas:

    A) Quem são as pessoas que vão lidar com os alunos que se inscrevem nos internatos mágicos?

    B) Como essa estrutura física é formada?

    Para essas perguntas enfatizo que é tudo uma questão ideológica.

    Os mestres nem sempre são as melhores criaturas, afinal, nem sempre é levado em consideração o tipo de caráter que possuem – se existem dúvidas quanto a essa perspectiva, basta uma rápida olhadela para o modo como muitos dos funcionários se portam em ambiente escolar; perguntem para os muitos estudantes se já não foram “mal tratados” por algum “professor”. E vejam bem: não é apenas uma crítica àqueles que formam o grupo docente, mas sim um ponto a ser considerado pelas respectivas direções. Por que raios vocês continuam contratando pessoas que não são confiáveis? Por qual motivo permitem que professores duvidosos entrem em seus territórios?

    Isso nos leva à questão B: Como é a estrutura física do lugar onde são recebidos os alunos?

    Pensem comigo, ouvintes: são lugares imaculados, abençoados por espíritos antigos (Helga Hufflepuff, Godric Gryffindor, Rowena Ravenclaw, Salazar Slytherin; Drekavac, Willa, Vodianoyi, Leshiy; Rurikovich, Romanov; Brigit, Mélusine, Morrigan – para citar as 3 escolas que mais preocupam os órgãos políticos, é claro). São poderes que transcendem àqueles que conseguimos controlar, e que chamam a atenção de “vilões”. Eu, particularmente, vejo tudo isso como uma bela oportunidade de propaganda, mas… Todas as três instituições exemplificadas carregam consigo a possibilidade do caos. E o tato pra lidar com a linha tênue entre poderes controláveis/poderes extraordinários não parece ser levada em consideração pelos conselhos e direções.

    As últimas notícias parecem repetir aquilo que sempre ocorre: mais um ano se passou e Beauxbatons e Hogwarts foram assoladas por eventos atípicos que colocaram em risco a segurança de suas crianças. Enquanto isso, Durmstrang ofereceu, mais uma vez, Jogos de Guerra que, ao contrário das outras duas, foi propositalmente pensado para testar a segurança de seus estudantes (esse é o lema do lugar, certo?). Em duas dessas instituições, por exemplo, existe a hipótese do roubo de relíquias, magias etc. Se não, então por qual outro motivo essas catástrofes se manifestariam em território “tão protegido”?

    Com isso os pais devem se perguntar por qual motivo ainda mantém a matrícula de seus filhos nessas escolas pseudo-seguras. A resposta para essa equação é simples: capital cultural.

    Não há nada como gozar de uma formação acadêmica de excelência. Ser formado em qualquer uma das três instituições, principalmente se você se formar com honrarias, é o mesmo que garantir um emprego na CIB, em qualquer um dos Ministérios de Magia. Abrir mão dessa oportunidade é algo impensado por qualquer humano bruxo e/ou meio veela (afinal são esses seres que são aceitos, em sua maioria). Do mesmo modo, por que não aproveitar as chances de lecionar em um desses lugares, se a oportunidade de fazer reféns e ainda sair com alguma informação sigilosa a respeito de algum ritual antigo é tentadora? Fica o questionamento.

    Enquanto isso, todos os olhos se voltam para a crise educacional que assola o mundo mágico. As escolas se mantém tão vulneráveis quanto sempre foram, a excelência tecnicista de conceitos do nosso mundo é questionável, e seus alunos passam por crises específicas (psicologicamente falando), ao passo em que aqueles que são responsáveis por pensarem a viabilidade desse projeto de educação se ocupam com outras questões mais pertinentes.

    Enquanto isso, igualmente, escolas que não são noticiadas pelo simples fato de serem mais pacatas continuam formando seus alunos, mas nenhuma delas recebe a devida atenção da nossa CIB. Um exemplo clássico é a escola ugandesa Uagadou, cujo percentual de bruxos formados e de sua colaboração para com seu grupo social é dos mais altos. Além disso, questões mais latentes também são ignoradas: a preocupação em construir uma sociedade mágica mais igualitária, assegurando direitos básicos pra quem a compõem, é deixada de lado em detrimento de ideologias políticas adequadas à apenas uma classe importante: a de “sangues-puros”.

    Vamos continuar a formar nossos bruxos, de forma que pensem com menos autonomia e criatividade? Ou finalmente vamos perceber que certas instâncias precisam se responsabilizar pelas coisas que ocorrem em seu território?

    Música do espaço do ouvinte


    Agora vamos às questões dos ouvintes:

    A primeira carta que chegou pelo nosso pombo apressado veio do ouvinte Duende Raivoso, e ela diz: “Por qual motivo você se frustra quanto a segurança dessas escolas? Como que você chegou a essa conclusão?

    É simples, caro Duende: a História se lembra. Anos atrás Durmstrang ruiu e colocou em risco a segurança de seus alunos justamente porque os poderes dos espíritos foram almejados. Do mesmo modo Beauxbatons. As duas, por exemplo, receberam pessoas que se diziam responsáveis, que ocuparam um espaço muito importante em seu território, e o modo como lidaram com isso foi vazio. Beauxbatons resolveu adotar a fé cristã, nesse sentido, e reestruturou o castelo. Enquanto isso, Durmstrang lidou com um dragão. Em Hogwarts o expresso perdeu o controle, vassouras pararam de funcionar; uma professora ateou fogo na sala comunal de uma das casas. De que modo puderam garantir segurança às crianças? Não podemos fechar os olhos para isso.

    O segundo comentário é do Meio Veela Sedutor, e diz “O programa é uma porcaria: parece estrume de dragão com dor de barriga. Deviam pensar em aproveitar melhor esse momento e deixar o programa de esportes por mais tempo.

    Sobre isso só posso afirmar: pão e circo, meu caro. Pão e circo.

    A próxima pergunta é da Bubotúbera Explosiva. A proposta é: “Já que você sabe tanto como resolver problemas alheios, o que você sugere para as escolas citadas?

    Querida Bubotúbera, o que eu sugiro é bem simples: maior debate e democratização. Se essas crianças são as que vão pensar o mundo bruxo de amanhã, por que não saber delas o que é desejado? Ora, a democracia é algo trabalhoso, que leva tempo. Não digo, com isso, que devemos instaurar a anarquia política. Muito pelo contrário! Devemos questionar o que é ensinado, repensar o perfil dos professores – perguntar, por exemplo, por qual motivo se portam de modo violento em suas escolas, é uma forma de investigar –, fomentar novos estudos, fazer correlações e, principalmente, questionar: “de quem é a mão por trás desse padrão que só estraga nossas escolas?”

    Para citar uma banda trouxa e antiga: “ninguém disse que seria fácil”. Não é. É muita presunção achar que tudo é muito fácil de ser tecido. Mais ainda é acreditar que uma simples palavra e/ou postura será suficiente para arrumar todos os nós deixados para trás! É nosso dever, enquanto sociedade mágica, refazê-los. Garanto que teremos mais cachecóis do que linha embaraçada.

    Por último, mas não menos importante, nosso Hipogrifo Elegante diz: “Parece muito fácil citar Uagadou como única escola de excelência, não é mesmo? Mas deixar para trás a pobreza de Uganda parece proposital. O que tem a dizer sobre isso?

    O que é mais fácil ainda é julgar uma cultura como pobre com um olhar preconceituoso. Não quero dizer que Uganda é o pais mais rico, mas seus bruxos são os que menos são presos por ilegalidades mágicas. Temos preocupações mais latentes com as quais lidar, buscamos a instauração da democracia ATRAVÉS da democracia. E isso é o mais importante. É obvio que o conceito de democracia é um tanto questionável, mas é o padrão político mais aceitável, e com o qual as diferentes vozes podem se fazer ouvir.

    Ainda: se quer uma outra escola que pode atingir os padrões eurocêntricos de excelência educacional, podemos citar Ilvermony, afinal as notícias não repetem as mesmas polêmicas de Hogwarts. E esse é só mais um exemplo. Ainda que tenham particularidades culturais e políticas no que diz respeito a MACUSA, Ilvermorny se mantém como uma das escolas mais influentes dos últimos séculos. E não é para menos! Podemos também citar o Instituto Salém, cujas bruxas carregam uma história singular, e cujas notícias não tratam de catástrofes ou qualquer tipo de problema que arrisca a segurança de seus alunos. Foram exemplos estadunidenses que certamente vão descer mais suaves por certas gargantas.

    Música do encerramento do momento dos ouvintes


    Minhas palavras podem carregar muitas verdades inconvenientes – inclusive para mim. Assim, deixo com que repercutam por aí, esperando que fação uma reflexão sempre sadia de tantos aspectos de nossa vida.

    Nosso tema do próximo programa será: “a presença feminina nos órgãos públicos mágicos”. Fiquem atentos!

    Música de encerramento

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15/07/2020 às 18:09:18

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